Então tem esse rolê de que eu tou muito viciadinha nas publicações da dublinense e tenho pensado muito sobre essas autoras que não são latinas, mas são de ascendência latina e, por isso, trazem a questão latina nas suas obras. Escritoras que vivem um lugar de identidade de fronteira sabe?
A casa na Rua Mango, da mexicana nascida nos Estados Unidos Sandra Cisneiros, é um livro que narra um pouco da infância e início da adolescência da autora, por meio da autoficção. É a protagonista Esperanza que nos conduzirá por este lugar da periferia de Chicago que abrigava todo tipo de imigrante e de pessoas mais pobres.
Um lugar que dá medo em que não conhece, mas cuja existência rasura tudo isso mostrando que a periferia é pulsante, intensa e produtiva para surpresa das elites. Rasura também essa ideia de uma vida norte-americana higienizada, plástica e celebrada na mídia, ou seja, essa vida tipo exportação que tentam enfiar goela abaixo a cultura estadunidense.
E a Rua Mango é uma resistência e escrever sobre ela é um projeto de vida da Sandra Cisneiros que aparece no início do livro, a introdução. Uma foto da autora quando jovem em sua casa sem calefação, diante de sua máquina de escrever, performando seu sonho de ser escritora e ser respeitada pelo seu trabalho.
Mostrando para a gente que ela escaparia do destino fatalista da maioria das mulheres que vieram de onde ela veio: apenas ter filhos, sofrer abusos e violências e ser coagida a não sair dos ambientes perversos em que vivem.
Esperanza escapa e isso é muito potente.
E na verdade, pra mim, só esse início já merece uma tese de doutorado pelas muitas camadas e complexidades que abarca, por mostrar esse desejo de escrita à revelia de todas as barreiras e questões contra essa mulher estrangeira em seu próprio país. Uma mulher mestiça, como diria Glória Anzaldúa, uma mulher que ousa existir, uma mulher que não tem as condições perfeitas para escrever e mesmo assim escreve.
O livro traz uma série de histórias de vida que vão compondo esse cenário com cores, cheiros, sons e dialetos próprios e isso é muito lindo de se ler. Esperança, nossa protagonista, vai nos conduzindo pelas casas e nos apresenta figuras interessantíssimas que mostram as nuances daquela comunidade.
A casa na Rua Mango é um livro leve, para desopilar, que reflete questões muito intensas e complexas de forma tão fluida que nem parece que tem tanta coisa acontecendo ali, mas tem.
Particularmente, achei uma boa leitura e me tirou um pouco de textos super pesados pelos quais sou apaixonada. Vale a pena se perder no meio de tanta gente interessante.

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