O equador tem trazido tantas escritoras potentes quanto meu coração pode aguentar. Já tinha lido Mônica Ojêda, María Fernanda Ampuero e agora é Solange Rodríguez Pappe quem me tira o fôlego. Admito que estou doida pra conhecer o país, tão celebrado e aclamado por gente muito querida por mim.
Uma nova espécie, publicado pela deliciosa editora Peabiru, traz 13 contos com universos distintos, mas que todos se conectam em usar a literatura e a ficção especulativa como vértices para questionar violências pesadas como estupro, incesto, violência doméstica e tantas outras camadas sociais que revelam nossas mais complexas singularidades.
É um livro tão bem amarrado, costurado, que eu acho que quase todos os contos me pegaram em cheio. O que eu acho um pouco difícil, em se tratando de um livro de contos, gostar muito de todas as histórias apresentadas.
Uma nova espécie é uma aula de narrativa, de poder transitar por possibilidades textuais e imaginativas tão diversas. Vou destacar 4 histórias que me deixaram de boca aberta.
Em Calamidade Doméstica, Solange revisita Barba Azul, mas agora pela perspectiva das mulheres por ele aprisionadas. É tão interessante a maneira como descreve Dois, nossa heroína, suas descobertas, violências vividas e tristezas. Existe uma legião de mulheres encarceradas nos escombros das casas e das cidades, mulheres guardiãs de relatos prontas para se libertar.
Em O mar espera entre os chifres dos cervos , uma calamidade global baixa as temperaturas e faz com que muitos morram, mas nossa protagonista não está pronta para desistir da vida. Ela paulatinamente constrói a si e ao mundo ao redor para se fazer sujeito e não objeto dos outros. Impressionante como Solange recria, no meu ponto de vista, o mito de La Huesera, com maestria, colocando na potência de mulheres a grande possibilidade de recuperar aquilo que periga se perder. Trinidad e seu destino ancestral, animalesco, em matilha é simplesmente um bálsamo literário, uma aula de narrativa.
O que mais gosto de A profundidade dos armários é como esse conto se liga com outras histórias do livro. Ao criar um mundo labiríntico que permeia vidas ocultas por armários, gavetas e verdadeiros abismos em baixo das camas, a autora nos mostra toda a face oculta de tabus e preconceitos, mas também de existências que erroneamente fingimos não ver. É bonito como essa mulher desejante se relaciona com a própria sexualidade e explora os muitos mundos ao redor. Que delícia.
A mãe é um conto sobre parir a si mesma e gestar o mundo. Um conto sobre solidão, dor, falta, sobre perder quem mais ama e seguir tentando reconstruir os pedaços de si. Impossível não se emocionar com essa mãe, essa criança, essa gestação. Impossível não olhar para ela e ver tantas de nós. Quanta potência. Quanta profundidade. Quanta sensibilidade.
Eu realmente não imaginava que Uma nova espécie me levaria para tantos lugares incríveis. O que Solange Rodríguez Pappe faz aqui é bruxaria. Bruxaria pesada, bonita, bem construída com as palavras. Fico pensando na importância de um livro tão bem estruturado como esse. Carontes, marcianos, labirintos, futuros distópicos, coragem para tratar da sexualidade. Tudo se conecta na presença poderosa de mulheres que ousam ser e existir para além das violências, inquebráveis, mesmo quando quebram.
Com quarta capa de Giovanna Rivero que diz: "Treze contos como a mais maravilhosa da cabalas", Uma nova espécie é um livro que, sem dúvidas, entrou para os meus favoritos da vida. Não apenas por juntar literatura e bruxaria, mas por ser uma aula sobre os dois. Solange Rodríguez Pappe, eu te invoco! Obrigada por escrever de maneira tão brilhante.
Sobre a autora:
Solange Rodríguez Pappe é equatoriana de Guayaquil. Se formou em literatura pela Universidade Católica de Santiago de Guayaquil, onde foi colega da María Fernanda Ampuero. É mestra em literatura hispano-americana pela Universidade Andina Simón Bolívar. Ganhou o Prémio Joaquín Galegos Lara em 2010 com o livro de contos Bales perdidas. Tem publicado no Brasil um conto na Puñado número 7 - Instinto; o livro Universos Breves, que saiu pela Cobogó; e Uma nova espécie, pela Peabiru.
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